A gente vê uma demanda que nos acende um alerta

Atualizado: há 6 dias

Entrevista com Luciana Neves, coordenadora do Departamento Científico da Academia Brasileira de Neurologia (ABN)



Quais são hoje os principais desafios para a expansão dos cuidados paliativos no país?


Infelizmente ainda são poucos os serviços. Penso que nos hospitais públicos é mais fácil de montar, pelo sistema de trabalho, do que no privado, porque não conseguimos repassar e quantificar muitas vezes o valor para esse cuidado. Não é como uma consulta do clínico. Para formar uma equipe você tem que contratar assistente social, médico, psicólogo, fisioterapeuta... é um conjunto de profissionais, que terão um grau de envolvimento com o paciente e sua família maior do que costumamos ter na prática clínica usual. É um processo de construção. Ele demanda muita energia. É desgastante, é lento mas, ao mesmo tempo, é muito gratificante. É diferente do que ser interno para trabalhar uma pneumonia, um infarto. Você lida com muitas questões: a família, a espiritualidade, a questão de controlar os sintomas, os desejos do paciente, seus valores... mesmo assim, é muito gratificante.


Houve aumento da demanda por cuidados paliativos com a covid?


A gente vê uma demanda que nos acende um alerta: uma coisa é o cuidado paliativo, outra coisa é a falta de recursos. Tem questões éticas a serem revisadas. Por isso é bom trabalhar em grupo os cuidados paliativos, porque envolve sentimentos e muitas questões éticas. O cenário que vimos durante a pandemia foi o de falta de recursos, de médicos tentando garantir conforto mínimo a pacientes que não podiam ser atendidos com qualidade por falta de insumos, leitos ou o que quer que fosse.


Como se dá a relação com as famílias nesse processo?


Geralmente é o médico que acompanha que vai falar sobre isso. Há familiares que, por experiência com outros membros da família, acabam perguntando sobre os cuidados paliativos. É necessário muita delicadeza, porque a gente não pode tirar a esperança. Cada minuto dessa pessoa é uma eternidade. Eu não posso esperar um, dois, três dias para oferecer uma equipe. Tudo isso impacta diretamente na recepção que aquela família terá aos cuidados paliativos, porque ele não deve ser dissociado do processo de tratamento, justamente para que não haja essa ruptura e sensação de abandono com o familiar. Eu tenho uma paciente agora que tem câncer de pulmão com metástase e ela não quer tratar, não quer fazer radioterapia, porque ela não vê sentido. Ela é uma paciente lúcida, com autonomia. Cabe a nós profissionais entender esse desejo. O câncer é secundário: a prioridade é o bem-estar dela.



Fonte: Tribuna do Norte

APAN | Associação Paulista de Neurologia

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