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Diretor da APAN fala ao Estadão sobre Síndrome de Tourette, que acomete participante do BBB 23

Estar no Big Brother Brasil (BBB 23) é estressante e, nas últimas semanas, o público acompanhou uma crise de ansiedade do participante Antônio “Cara de Sapato”. O quadro está ligado à Síndrome de Gilles de la Tourette (ST), segundo disse o irmão do BBB, Mário Figueiredo, à Revista Quem nesta quarta-feira, 1º.


“Aos nove anos, ele começou a apresentar alguns sintomas e, posteriormente, foi diagnosticado com Síndrome de Tourette, que é um transtorno neuropsiquiátrico hereditário, que causa alguns tiques. As crises de ansiedade vieram depois”, relatou Mário na entrevista.


Os “tiques”, mencionados por Figueiredo, estão entre as características principais do transtorno neurológico. De acordo com o Manual Merck, publicação com referências médicas da farmacêutica do mesmo nome, atingem cerca de 20% das crianças com a síndrome, que tem forte fator genético.


Os tiques podem se manifestar de forma motora ou vocálica. No caso dos tiques motores, a doença se apresenta por meio de movimentos musculares súbitos, rápidos e repetitivos, que ocorrem de forma mais simples, como piscar ou fazer caretas, ou de modo mais elaborado como torcer rosto, cabeça e movimentar os braços.


Na voz, as ações geralmente envolvem pigarros, tosse, imitação de ecos de palavras que a própria pessoa acabou de dizer ou de palavras ou frases que ouve de outras pessoas. E, em casos mais específicos e raros, inclui a coprolalia, quando há involuntariamente a repetição de palavras obscenas.


Médico neurofisiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Marcel Simis afirma que a dificuldade de inibir tais impulsos também faz parte da doença. “O cérebro tem um circuito que inibe movimentos involuntários ou a vontade de falar um palavrão, a perda dessa capacidade e uma alteração funcional deste circuito deixa de inibir”, diz. Segundo ele, a ocorrência da coprolalia é rara e acontece em apenas 1% dos casos.


O transtorno ocorre principalmente em meninos, identificado entre os 5 e 10 anos, com pico de gravidade por volta dos 12 anos, que diminui ao longo da adolescência e tende a se controlar aos 20 anos. Na maioria dos casos, os tiques desaparecem de forma espontânea, mas ainda conforme o Manual, em cerca de 1% das crianças os tiques persistem na vida adulta.


A crise de ansiedade de Antônio

A sobreposição com outros sintomas pode ocorrer por meio de comorbidades, que são bastante comuns entre estes pacientes. Os transtornos oriundos da síndrome podem até interferir no desenvolvimento social e bem-estar. Em crianças com tiques, as comorbidades podem ser:


  • Transtorno de deficit de atenção/hiperatividade (TDAH)

  • Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)

  • Transtornos de ansiedade

  • Transtornos de aprendizagem


De acordo com o Manual Merck, o TDAH é a comorbidade mais comum, e é costumeiro que os tiques apareçam primeiro quando as crianças com o transtorno são tratadas com um estimulante. Adolescentes e adultos com a síndrome podem ter:

  • Depressão;

  • Distúrbio bipolar;

  • Transtorno por uso de substâncias.


Como ocorre o diagnóstico?

Segundo o neurologista Marcel, a orientação é não supervalorizar os sintomas antes que o diagnóstico seja concluído, visto que é comum crianças apresentarem tiques. “Não necessariamente isso seria uma doença. O diagnóstico geralmente é clínico, com observação dos sintomas e história do paciente”, afirma.


Os transtornos de tiques são divididos em três categorias pelo Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, sendo:


O transtorno de tique provisional: tiques únicos ou múltiplos motores e/ou vocais presentes por mais de 1 ano.


Transtorno de tique persistente: tiques únicos ou múltiplos motores ou vocais presentes por mais 1 ano.


Síndrome de Tourette: tanto tiques motores como vocais estão presentes por mais 1 ano.


O acompanhamento é feito, geralmente, pelo neuropediatra, onde os pacientes começam com o transtorno temporário de tique e, às vezes, evoluem para um transtorno de tique persistente ou síndrome de Tourette.


O início costuma ser antes dos 18 anos, mas não devem ser confundidos com casos decorrentes do uso de drogas, como cocaína ou de outras doenças como Huntington, encefalite pós-viral ou epilepsia.


O diagnóstico diferencial com outras doenças é feito para esses casos, onde exames como ressonância, tomografia e um eletroencefalograma são feitos para desfazer a suspeita clínica,


Existem tratamentos?

O tratamento pode ser feito de forma medicamentosa, principalmente em casos de coprolalia, por meio da psicoterapia, que utiliza o antipsicótico a fim de controlar os impulsos em casos necessários.


Mas o processo também pode ocorrer com a terapia cognitiva comportamental, onde o paciente aprende melhor a lidar com a doença e a evitar situações que desencadeiam os sintomas, como momentos de estresse e ansiedade.


Em parte dos casos em que os tiques se mantêm crônicos na vida adulta e não respondem ao tratamento, o médico explica que há possibilidade de cirurgia “com técnicas de neuromodulação, implante de eletrodos, para ajudar a controlar os sintomas”.


“É importante os paciente e familiares entenderem bem os sintomas, e essa comunicação existir com os educadores e com a escola. Eles serem orientados sobre o que é essa doença e quais os sintomas para ajudarem a lidar com essa criança e adolescente”, diz Marcel, explicando que é possível viver de modo tranquilo com a síndrome, como é o caso do Cara de Sapato.


“O Sapato sempre teve acompanhamento e as crises nunca chegaram a um estado crítico ou atrapalhá-lo em sua profissão ou vida pessoal. Os sintomas dessa síndrome vão amenizando no decorrer da vida adulta. Aqui fora, o Sapato faz acompanhamento com psicólogos e especialistas há muitos anos. A disciplina que ele tem com o esporte e estar com a cabeça sempre ocupada com outras atividades ajudam muito”, disse Mário, o irmão do lutador.




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