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Imunização contra a poliomelite: Entrevista do Dr. Acary Bulle Oliveira

‘Temos um débito enorme com as pessoas que tiveram poliomielite no passado’, diz neurologista


Campanha multivacinação terminaria na última sexta-feira (9), mas foi prorrogada até dia 30 em todo o Brasil por causa da baixa procura. Para Acary Bulle Oliveira, médico e professor da Unifesp, imunizar as crianças representa uma homenagem aos sobreviventes da doença.


Para ficar em pé, o analista de sistemas Mostafe Amed, de 66 anos, que mora em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, precisa travar as órteses que mantêm as pernas esticadas. Para andar, só com o apoio de duas muletas.


A secretária aposentada Rai Lorenzetti, de 72 anos e moradora da Vila Mariana, na Zona Sul da Capital, trocou as muletas pela cadeira de rodas quando engravidou pela primeira vez, para correr menos riscos de queda e se sentir mais segura.


O marido dela, Alvaro, que tem 68 anos, nasceu em Adamantina, no Interior paulista, e chegou a competir em atletismo como levantador de peso, hoje não tem mais a mesma força nos braços e precisa vestir um colete especial para não sentir as dores constantes na coluna.


Os três fazem parte de um grupo de milhares de brasileiros que tiveram poliomielite antes da chegada ao Brasil da primeira vacina contra o poliovírus, que é transmitido pelas fezes e atualmente combatido com algumas doses injetáveis do imunizante aos dois, quatro e seis meses de vida, e de gotinhas aos 15 meses e quatro anos.


Para o neurologista Acary Souza Bulle Oliveira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o cotidiano deles incorpora o resultado de décadas do avanço da medicina provocado pela doença. “A pólio nos trouxe a vacina, a forma de fazer vacina. Vejam agora em relação à Covid-19, à Coronavac, é a mesma forma”, explicou ele em entrevista ao SP1.


“Ela nos trouxe os aparelhos chamados órteses, para nos ajudarem no dia a dia. Ela nos trouxe a primeira UTI, não se tinha UTI antes. Ela nos trouxe o primeiro aparelho ventilador. Inicialmente, tinha um aparelho chamado de pressão negativa, o ‘pulmão de aço’. E hoje temos ventiladores pequenininhos domiciliares, que mantêm as pessoas vivas, respirando, podem ir e vir, frequentarem atividades sociais.” (Dr. Acary Souza Bulle Oliveira, neurologista)


Recentemente, os sobreviventes da pólio se viram obrigados a assumir o papel de ativistas pela vacinação. Eles são unânimes em dizer que a queda recente na cobertura vacinal coloca em risco toda uma geração de bebês que, caso o vírus retorne ao Brasil, podem sofrer com os mesmos problemas para o resto de suas vidas.


Nesta semana, o Ministério da Saúde anunciou a prorrogação da campanha de multivacinação, destinada a garantir doses atrasadas de dez imunizantes diferentes para crianças de cinco a 14 anos, e da vacina em gotinhas contra a pólio para as crianças de um a quatro anos.


Entre 8 de agosto e 9 de setembro, a campanha multivacinação já aplicou 908 mil doses contra a pólio no Estado de São Paulo, o que representa apenas 38,3% do público-alvo, segundo um balanço divulgado na noite desta sexta-feira (9) pela Secretaria Estadual da Saúde (SES-SP).


A pasta afirmou ainda que outras 503 mil crianças e adolescentes de cinco a 14 anos (8% dos mais de 9 milhões de paulistas nessa faixa etária) compareceram aos postos de vacinação, e cerca de 290 mil tomaram alguma das outras dez vacinas disponíveis.


Segundo o neurologista, além da medicina, foi para atender as crianças que acabaram permanentemente acamadas que foi inventada a primeira documentação de slide no teto, o primeiro carro adaptado, as leis de acessibilidade e o esporte adaptado.

"Tudo que estamos vendo aqui hoje, do ponto de vista de acessibilidade e de leis e de facilidade para ao dia a dia, tem a ligação com a poliomielite", diz Oliveira. "Não podemos, de jeito nenhum, em homenagem a essas pessoas, deixar que a poliomielite retorne. Portanto, vocês pais, mães, avós, não deixem a pólio voltar. Vacinem, vacinem, vacinem."





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