Os efeitos da covid-19 em quem tem lesão medular



A senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP), 52, relatou que está com sequelas da covid-19, dentre elas dores e espasmos musculares fortes, além da perda de memória recente. A senadora é tetraplégica desde que um acidente de carro lhe causou lesão medular, o que a coloca no grupo de risco da doença causada pelo novo coronavírus.


De acordo com Regina Fornari, médica fisiatra e diretora do centro de reabilitação Lucy Montoro de São José do Rio Preto (SP), pessoas com lesão medular são mais propensas a ter complicações pela covid-19 porque apresentam uma resposta neurológica mais intensa a tudo que afeta a medula espinhal.


“A medula é a principal via de transmissão dos impulsos nervosos do cérebro para o tronco e os membros. Então, qualquer infecção, tudo que irrita a medula vai provocar uma resposta nervosa muito exuberante”, explica.


Wilson Marques Junior, professor de neurologia da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, esclarece que todo órgão tem uma “reserva funcional, mas quem tem lesão medular não pode contar com ela”.


“O fígado precisa de 1/4 de sua capacidade para funcionar. Então, se você perder 3/4 dele, vai continuar sobrevivendo”, exemplifica. “Quem tem lesão na medula já está trabalhando sem ela. Aí, pode ser que o vírus invada o sistema nervoso. Se isso acontecer, o estrago vai ser maior”, detalha.


Gabrilli foi diagnosticada com covid-19 em maio e, na última semana, ela refez o teste e o resultado deu negativo.


“No entanto, passado o vírus, ainda tenho algumas sequelas da doença. Durante todo o processo da covid tive muitas dores e espasmos musculares, que continuam muito fortes. As dores me geraram espasmos, que agora me geram mais dores”, conta em seu blog.

A senadora também relata sequelas como perda de olfato, paladar e memória recente. Essas manifestações mostram que o vírus realmente afetou seu sistema nervoso e, segundo ela, a dimensão das consequências ainda serão estudadas.


De acordo com Regina, os espasmos – contrações involuntárias dos músculos – são uma das respostas da medula espinhal à infecção pelo vírus. “Essas contrações musculares são extremamente dolorosas”, descreve.


Marques acrescenta que espasmos são comuns em quem tem lesão medular. Segundo ele, a infecção pelo novo coronavírus pode fazer com que as contrações piorem ou voltem a acontecer.


Por outro lado, o professor avalia que a perda dos sentidos e da memória não têm a ver com a lesão medular. “Nenhuma dessas manifestações estão associadas com a lesão, isso é coisa comum [em pacientes com covid-19]”, afirma.


Regina, por sua vez, observa que pessoas tetraplégicas já têm a capacidade de expansão do pulmão diminuída, algo que piora com a covid-19 e dificulta a respiração. “Os lapsos de memória talvez aconteçam por causa da baixa oxigenação do cérebro”, analisa. “Mas tudo isso é muito novo e está sendo estudado”, destaca.


“Esses casos de lesão medular associada à covid estão sendo descritos agora. A gente não sabe como o paciente vai evoluir porque são pouquíssimas situações descritas”, concorda Marques.


Gabrilli, por enquanto, continua afastada do Senado e vai começar seu tratamento de reabilitação. Esse processo é crucial para a conquista de melhoras, de acordo com Regina.


Fonte: Portal R7

APAN | Associação Paulista de Neurologia

Assessoria de imprensa 

ACONTECE COMUNICAÇÃO INTEGRADA