Estudo revela inflamação e degeneração muscular provocadas pela covid-19

A covid-19 vem acumulando uma série de sintomas que se apresentam mesmo após o período infeccioso da doença. O mais recente são os danos nos músculos, ou as miopatias, que se caracterizam em sintomas de fraqueza muscular ou até dor.



Estudo publicado no periódico JAMA Neurology no início de junho avaliou as amostras do músculo esquelético de 43 pessoas que morreram por complicações da covid-19, e as comparou com 11 amostras de pessoas que morreram por outras doenças. Além de terem um grau significativamente maior de adoecimento, o grupo da covid-19 apresentou também mais sinais de degeneração das fibras musculares.


Além disso, este grupo também teve mais sinais de miosite, ou a inflamação dos músculos. De acordo com Maria Tereza de Moraes Souza Nascimento, médica neurologista e neurofisiologista do Hospital INC, em Curitiba, esse é um padrão de acometimento pela Covid-19.


“Já sabemos que essa neuropatia se manifesta com nervos esparsos pelo corpo, e não com todos os nervos ao mesmo tempo. É uma manifestação decorrente de uma inflamação nos pequenos vasos dos nervos, por conta do processo inflamatório generalizado que a Covid grave gera”, explica a especialista.


Segundo Nascimento, a ação do coronavírus neste sintoma não é direta, visto que não foram encontrados traços do vírus nos músculos. Mas, sim, via a tempestade inflamatória que é desencadeada pela doença em casos mais graves da Covid-19.


Sinais de alerta


Segundo a neurologista, tem sido comum ver pacientes pós-Covid-19 que buscam orientação por não conseguirem levantar as mãos, os dedos, o punho ou mesmo os pés. “A Covid grave pode ter manifestações neuromusculares, e elas se apresentam como fraquezas ou falta de força em algum segmento do corpo. Por exemplo, uma fraqueza da mão, do pé, dificuldade para caminhar ou subir escada”.


Quem notar alguma sequela do tipo, especialmente se incapacitar alguma atividade do dia a dia, deve procurar orientação médica. “Às vezes a pessoa perde a ocasião do tratamento. Um paciente que fica com a mão caída e não faz uma fisioterapia adequada pode ter uma atrofia muscular que pode ser difícil recuperar depois. Quanto mais cedo perceber a sequela motora da Covid, é importante buscar pelo menos uma triagem da neurologia”, orienta Nascimento.


Há fraqueza muscular na Covid-19 leve?


Embora o estudo citado acima tenha se baseado apenas em casos tão graves de Covid-19 que levaram os pacientes à óbito, é preciso verificar se os problemas musculares não estão sendo apresentados também entre quem teve formas mais leves da doença.


“O estudo é baseado em pacientes enfermos graves, e vemos que, na prática, eles têm mais dificuldades em recuperar. Mas abre um adendo para avaliar se isso não pode acontecer nos casos mais leves também. Pode ser que o paciente tenha um grau de dor muscular ou uma mialgia crônica, que reduz um pouco o limiar da dor [após a Covid]”, explica Anelise Carpiné, médica neurologista e neurointensivista do Hospital VITA e preceptora de residência da PUCPR.


Ainda de acordo com a especialista, este é um sintoma difícil de se verificar porque a fadiga – sintoma bastante comum pós-Covid-19 grave – pode mascarar as dores. “Quando os pacientes voltam para as atividades físicas mais brandas, pro exemplo, ele percebe um grau de fadiga e ele não consegue nem fazer o exercício a ponto de ver a mialgia”, esclarece.


Tratamento


Pessoas que apresentem alguma fraqueza ou dor muscular após a Covid-19 devem buscar orientação médica para avaliação. Pode ser necessário a realização do exame de eletroneuromiografia, que avalia lesões do sistema nervoso periférico. Como tratamento, pode ser indicada a fisioterapia.


“Com toda certeza vão precisar de reabilitação especializada. Uma terapia ocupacional, caso tenham algum sintoma nas mãos; fisioterapia ou fisiatra. [O tratamento] é caso a caso, depende dos achados”, explica a médica neurologista Maria Tereza Nascimento.


Segundo a especialista, mesmo que já tenha passado um tempo, é importante que o paciente busque ajuda. “Quando a gente consegue atuar dentro do primeiro ano de qualquer lesão neurológica, esse é chamado de período de ouro. Mas dentro dos primeiros seis meses é quando temos mais ganhos. Sempre é possível orientar, adaptar a rotina, fazer alguma coisa”, explica.


Fatores de risco


De acordo com Anelise Carpiné, médica neurologista, ainda não está claro quais pessoas estariam em maior risco para os problemas musculares após a Covid-19, mas há um perfil que pode ser monitorado.


“Provavelmente os pacientes com menor condicionamento muscular, ou com a idade mais avançada, ou que já tenham um limiar de dor, como na mialgia. Esse deve ser um paciente [com maior risco para as dores musculares pós-Covid-19]. Mas também tem o grau de inflamação que é ativado no processo da doença, e que provavelmente tem uma correlação grande.”


Fonte - Tribuna OUL