Pesadelos na pandemia: por que temos sonhado mais com coisas ruins?

Especialistas explicam a relação e o que fazer para quebrar esse ciclo



A chegada da pandemia trouxe mudanças jamais imaginadas para a vida das pessoas. Mas quem poderia pensar que este novo cenário influenciaria até mesmo nossos sonhos? Acredite: isso já é uma realidade para muita gente que tem relatado noites frequentes de pesadelos na pandemia. O tema é tão real e atual que chegou, inclusive, a ser estudado por pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.


Em abril deste ano, a instituição avaliou 6 mil sonhos de 2.400 pessoas durante a pandemia. O que foi observado pelos profissionais foi uma alta frequência de sonhos ruins envolvendo insetos, vermes rastejantes, bruxas e gafanhotos com garras.


Houve, ainda, voluntários que sonharam que estavam sendo contaminados pelo Covid-19 ou que estavam em lugares públicos sem máscara.


Ao avaliarem profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao coronavírus, os resultados foram ainda mais intensos: os sonhos foram semelhantes aos de sobreviventes de guerras ou de ataques como o do World Trade Center, em Nova York.


Por que estamos tendo mais pesadelos na pandemia?


De acordo com Luciana Mescolin, psicóloga da Rede Silvestre de Saúde, do Rio de Janeiro, este aumento pode ser um reflexo de situações que não conseguimos administrar de maneira satisfatória diariamente, despertando sensações de medo, tristeza, desespero, angústia e raiva.


“Diante do cenário que estamos enfrentando, é normal a saúde mental ficar prejudicada, já que o ser humano é relacional: sente falta de toque, de abraço e do convívio social. Nesse panorama, constata-se que ninguém tem controle de nada. É uma realidade difícil, que precisa ser enfrentada por todos”, afirma.


Ana Paula Peña Dias, neurologista formada pela USP e especialista pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN) concorda. Segundo ela, nossos sonhos têm relação direta com o que estamos sentindo e vivenciando. Diante disso, experiências traumáticas — como a pandemia — nos causam estresse e afetam a qualidade do sono.


Pesadelos podem fazer mal à saúde


Os sonhos estressantes não só atrapalham o descanso, como também interferem diretamente em nossa saúde física e mental. Isso ocorre porque, após uma noite mal dormida, nossas habilidades cognitivas como atenção, raciocínio e memória costumam ficar reduzidas.


“Nosso cérebro precisa repousar. Esse momento de descanso não é perda de tempo. Costumo dizer que é um investimento pessoal. Além disso, durante o sono temos liberação de hormônios e substâncias essenciais para o bom funcionamento de nosso organismo”, aponta a neurologista.


Com isso, um sono fragmentado acaba não sendo reparador, levando o indivíduo a acordar cansado e com as habilidades citadas acima comprometidas.


Luciana ressalta, ainda, que a saúde mental está diretamente associada à qualidade e quantidade das nossas noites de descanso.


“Os distúrbios do sono provocam consequências adversas na vida das pessoas por diminuir seu funcionamento diário, aumentar a propensão a desordens psiquiátricas, assim como contribuir para o surgimento e o agravamento de problemas de saúde, riscos de acidentes de tráfego e absenteísmo no trabalho”.


Sonhos mais vívidos: há relação com o estresse?


Não bastassem os efeitos negativos gerados por uma noite mal dormida, muitas vezes ainda é preciso lidar com uma sensação de realidade dos pesadelos após despertar.


De fato, os sonhos estressantes podem ser bastante vívidos, ficando fixados na mente ao longo do dia ou até mesmo gerando reações corporais, como se tivessem acontecido na vida real. O motivo está na etapa do sono em que eles acontecem , como explica Ana Paula.


“Os pesadelos ocorrem durante o sono REM, que é a fase mais profunda do sono. Logo após um pesadelo desconfortável, normalmente o indivíduo acorda acompanhado por sensações físicas desconfortáveis como taquicardia, falta de ar e sudorese.”


Já de acordo com Luciana, outra influência para que os sonhos fiquem na memória por mais tempo é a agitação causada pelo estresse.


“Com a quarentena, os pensamentos negativos são recorrentes e o cenário é composto basicamente por dois ingredientes: a dúvida e o medo. O sono, em vez de ser reparador, passa a ser trabalhador. Nesse contexto, o indivíduo acaba acordando várias vezes à noite, o que possibilita a lembrança dos pesadelos com mais vivacidade”, ela esclarece.


Como evitar pesadelos na pandemia e dormir melhor


Depois de ler as informações acima, você já deve ter notado que o estresse é um dos grandes responsáveis pelos sonhos ruins, especialmente nos últimos meses.


As chances de termos pesadelos aumentam consideravelmente se, ao longo do dia, tivermos experiências traumáticas ou sensações desagradáveis. Sendo assim, o ideal é sempre tentar manter a mente tranquila e a saúde psicológica em dia.


Isso porque, como explica Luciana, a depressão, a ansiedade, o transtorno de estresse pós- traumático e a privação de sono também facilitam os pesadelos recorrentes.


“A pessoa fica mais frágil diante de todo o contexto atual e mais suscetível à ansiedade e à depressão, o que favorece episódios rotineiros de pesadelos e sonhos estressantes.”


Além disso, o consumo de algumas medicações, o abuso de álcool e de psicoativos também podem influenciar.


A profissional afirma, contudo, que com a ajuda de psicólogos é possível tentar compreender a recorrência dos sonhos agitados e, consequentemente, das noites mal dormidas.


“Ter pesadelo é a expressão de sentimentos ou vivências que são difíceis de lidar no dia a dia. Embora sejam simbólicos, é possível, com a ajuda de um psicólogo, compreender e dar sentido aos pesadelos, associando-os às dificuldades que a pessoa enfrenta, contextualizando os seus medos e as suas angústias.”


Dito isso, alguns cuidados diários também podem ajudar a manter os sonhos estressantes bem longe:


Ana Paula sugere evitar o uso de eletrônicos na cama, tomar um banho morno antes de deitar, praticar meditação, evitar cafeína depois das 15h e alimentos pesados antes de deitar e, por fim, apostar em um bom livro que possa te ajudar a relaxar.


“Outra sugestão para ter noites mais calmas é, ao acordar agitado com um pesadelo e tentar voltar a dormir, pensar num desfecho positivo para aquele sonho perturbador. O cérebro tenta nos proteger de sentimentos percebidos como nocivos. Assim, estaremos lhe dando uma ajuda”, completa Luciana.


Fonte - Boa Forma

APAN | Associação Paulista de Neurologia

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