Sentir choque sem estímulo externo sugere problemas de saúde; entenda



Sabe aquele choque que percorre todo o nosso antebraço ao acertar o cotovelo em algo bem duro, como a maçaneta de uma porta?


Ele decorre de um estímulo gerado pelo impacto direto no nervo ulnar, que passa dentro do cotovelo, bem superficialmente, a ponto de ser apalpado sob a pele, e continua seu trajeto até os últimos dois dedos da mão. O choque então o segue.


"Nervos funcionam como fios elétricos, é esperado que possam causar esse tipo de sensação, além de dormência e formigamento", compara Marcelo Amato, especialista em neurocirurgia pela SBN (Sociedade Brasileira de Neurocirurgia) e AMB (Associação Médica Brasileira), explicando que os nervos têm como função transmitir do corpo para o cérebro e vice-versa mensagens sobre o que é captado pelos diversos receptores, por meio de impulsos elétricos.


Nesse sentido, sensação de choque pode ter a ver com estímulos exteriores, como o de uma batida (situação momentânea, que não requer preocupação), mas também com parestesia, um conjunto de sensações atípicas não causadas por estímulos externos e que pode afetar qualquer parte, da cabeça aos pés. E entre as causas mais comuns, despontam compressão, inflamação e lesão de nervos, sugerindo uma gama de problemas de saúde, físicos e mentais.


Doenças musculoesqueléticas


São vários os distúrbios que podem cursar com sensações de choque, sobretudo em pernas, costas, braços e rosto. A começar do alto, a neuralgia do trigêmeo, que como o nome sugere, geralmente é causada pela compressão do nervo trigêmeo, no crânio,

capaz de produzir uma dor facial intensa, acompanhada de choques locais, principalmente ao comer e falar. A causa não é tão fácil de se identificar, mas costuma ter relação com pulsação arterial sobre o nervo.


Já choques na coluna se relacionam, principalmente, com compressão de raízes nervosas por hérnias de disco e bicos de papagaio. "Se for por artrose, ela vai aumentar o volume do osso e diminuir o espaço por onde o nervo passa, fazendo sentir essa compressão e, eventualmente, choque nas pernas, em caso de acometimento da coluna lombar, ou, nos braços, em caso de acometimento da coluna cervical", informa Felipe Gargioni Barreto, neurocirurgião especialista em coluna pela PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) e da Personal Ortopedia. Fisgadas energizadas ainda podem sinalizar: síndrome do túnel do carpo, que surge em decorrência da compressão do nervo mediano, que passa por esse túnel, localizado entre o punho e as mãos; síndrome miofascial, que atinge a região temporomandibular, mas ainda cabeça e pescoço, devido a contração muscular e inflamação de terminações nervosas por postura errada, esforço físico repetitivo; e esclerose múltipla, envolvendo compressão medular.


Choques, bem como alterações de sensibilidade, a exemplo de dormências, formigamentos, queimações e, em casos mais graves, perda de força e controle, também podem denunciar que nervos estão sendo acometidos por diabetes, transtornos psíquicos, às vezes, infecções, como as por tuberculose, herpes-zóster e, mais raramente, tumores, abscessos e meningite.


A neuropatia diabética é uma complicação do diabetes mellitus comumente não tratado de maneira eficaz e caracterizada por lesões e degeneração progressiva.


"Ela altera a vasculatura, afetando, consequentemente, a função dos nervos. O mais comum é ser nos bem fininhos e periféricos, de extremidades de membros, como mãos e pés, bastante propensos a sensações de ardência e choque, informa Júlio Barbosa Pereira, médico pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e neurocirurgião.


Já do ponto de vista mental, Wimer Bottura, psiquiatra e presidente da ABMP (Associação Brasileira de Medicina Psicossomática), cita como fatores que podem afetar os nervos com tensões, inflamações, compressões, a ansiedade, o estresse e os ataques de pânico.


"Essas manifestações atípicas, de choque, formigamento, tremor, podem ter origem psicossomática e corresponderem a substâncias que o corpo produz, como serotonina e adrenalina. Mas também podem ser por efeitos simbólicos, não químicos e desconectados da realidade". diz.


Como parar os choques?


Quando essas dores em descargas são sentidas com frequência e se desconhece o motivo, é preciso procurar um médico, que, além de investigar o paciente, para saber o que sente e seu histórico, geralmente pede exames de imagem.


"Quando não há relação com nenhuma causa mecânica compressiva interna, deve sempre ser investigada alguma doença neurológica" ressalta Nelson Astur, ortopedista e cirurgião de coluna do Hospital Albert Einstein e do Instituto Cohen (SP).


Não tendo, verificam-se mais causas. O diagnóstico é sempre de exclusão.


No que compete a tratamentos, para dor aguda são receitados analgésicos e, às vezes, corticoides, enquanto para casos crônicos, antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes, assim como fisioterapia, acupuntura e consulta com um profissional de saúde mental podem render resultados positivos.


Se for por diabetes, o controle da glicemia pode melhorar as neuropatias, que já estabelecidas também podem requerer drogas para reduzir a sensibilidade do nervo. Cirurgia só em último caso, quando é intratável. Doenças causadoras de compressão, como bico de papagaio, hérnias de disco, estreitamento ou constrição de dutos ou passagens (estenoses), tumores e cistos podem ser solucionados com cirurgia endoscópica de coluna, aponta o neurocirurgião Marcelo Amato.


"Como o procedimento é simples e exige apenas um corte pequeno, o trauma cirúrgico é mínimo e a recuperação é extremamente rápida", conclui.