Tiques podem ser desencadeados em tempos estressantes de isolamento social

O readaptar de uma hora para outra gera estresse como resposta devido aos estímulos constantes em resultado da covid-19



O neurologista francês Georges Gilles de la Tourette (1857 – 1904), depois de aprofundar no caso de tiques múltiplos, se juntou ao seu orientador Charcot para iniciar um estudo clínico para publicação. E o que era então chamada síndrome dos tiques foi transformada em Síndrome de Tourette, pelo seu próprio mestre Jean-Martin Charcot ( 1825 – 1893), considerado o pai da neurologia moderna e também professor do jovem neurologista Freud, que viria a se tornar também o pai da Psicanálise.

Sem entrar em pormenores científicos que apenas dificulta aos caros leitores uma melhor compressão sobre o tema, a Síndrome de Tourette (ST) é caracterizada com múltiplos tiques nervosos, sendo eles vocais e/ou motores repetitivos e tendo uma persistência maior de um ano. Sua causa ainda é desconhecida, mantendo estudos no campo da hereditariedade e episódios traumáticos em decorrência do estresse, gerando ansiedade generalizada. Advertindo que diferente do que a mídia introduz quando trata do assunto, a ST não é marcada apenas por gritos e xingamentos com ações motoras extravagantes, sendo ambas conhecidas como coprolalia e copropraxia, que é o efeito de agir ou falar obscenidades. Muito menos é uma síndrome incomum. Como mostra o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma em cada 360 crianças recebe o diagnóstico. A maioria dos casos é classificada como leve ou moderada.


Tipificando como um distúrbio que se tem presença predominante na infância, podendo ao longo do tempo desaparecer sozinho ou persistir mais gravemente na fase adulta. É importante ressaltar que quase toda criança tem um tique, o que é muito comum os médicos ignorarem tais sintomas porque geralmente desaparecem sem nenhuma necessidade de intervenção com o passar do tempo. O fator de risco são as que têm TDAH, TOC e alguma dificuldade de aprendizagem. Podendo neles desencadear a ocorrência de múltiplos tiques, tendo potencial de levar certo desconforto social para a criança que se não tratada, após essa fase, pode vir a se tornar um adulto com a síndrome.

Os atos compulsivos, ainda no período da infância, de ficar balançando a perna em um momento de estresse e/ou ansiedade, fazer barulhos com a boca como tossir constantemente, emitir sons com a língua, ecolalia (repetindo a última palavra dita por outra pessoa) ou até mesmo limpar a garganta em períodos de baixa latência podem ser características do início da Síndrome de Tourette. Outros traços como franzir a testa, encolher os ombros repetitivamente e ações ainda mais elaboradas que ocorrem em curto período, de maneira periódica, requerem uma avaliação para se mapear a circunstância da causa, verificando se é neuropsicológico ou neurológico. Essas ações até podem ser controladas por pouco tempo (se não tiver ajuda profissional) com uso de esforço consciente, o que pode provocar o transtorno de ansiedade generalizada (TAG), porque o impulso de realizar tais movimentos geram alívio imediato a sua tensão.


Sintomas de ST alternam o seu quadro em decorrência a estímulos ambientais. Como o seu evento se dá em ondas, com periodicidades variáveis, pode vir acontecer de um paciente que tenha distúrbios de movimento, por exemplo, passar do estalar os dedos toda hora, para balançar as pernas, repentinamente. Nos fazendo entrar na questão da nossa nova realidade momentânea do novo coronavírus, que vem assombrando a nossa rotina. O readaptar de uma hora para outra gera estresse como resposta devido aos estímulos constantes em resultado do covid-19. Esse novo fator ambiental faz com que os episódios da síndrome Tourette tenham latências ainda menores, provocando até mesmo incômodo, e consequentemente levando a uma fobia social e reclusão, gerando a partir disso até mesmo uma depressão.


Quando Freud (1856 – 1939) exprimiu a frase “nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos”, ele não quis apenas adentrar na área da filosofia e sim explicar que o nosso corpo descarrega tensão em tiques nervosos de maneira involuntária, sendo capaz de se agravar em outras patologias se não for apurada a causa traumática. O nosso corpo fala desde o nosso nascimento quando ainda não aprendemos a nos comunicar oralmente. Sigmund observou as atuações das crianças em decorrência de episódios traumáticos, o quanto desenvolviam comportamentos que não sabiam explicar o porquê, mesmo elas não possuindo nenhuma deficiência intelectual. Embora o pai da psicanálise não tenha adentrado muito ao campo do seu colega Tourette, pôde observar o quanto isso parecia ser desencadeado pela necessidade de guardar um segredo, que neste caso, nada mais é do que tentar se conservar no controle de diversas situações. Fazendo o sujeito realizar o ato mais comum que é balançar as pernas, muitas vezes e deixamos passar despercebido.


Embora seja uma síndrome ainda pouco divulgada, períodos como esse em que estamos passando, com cuidados e isolamento social, é importante frisar a importância de um acompanhamento clínico para diminuir as tensões de ansiedade. Se você observar seu filho passando a adotar comportamentos repetitivos é recomendável que se busque ajuda profissional, ao invés de tentar inibir o comportamento chamando a atenção da criança, porque ao fazer isso existe a possibilidade de acontecer que o distúrbio passe a se manifestar com outras características. Produzindo o aumento de manias e ansiedade. Para prevenir possíveis danos que geralmente são mais de cunho social e de auto estima é importante a análise se fazer presente, deixando a criança livre para transferir para o seu analista o que não consegue explicar. A síndrome de Tourette não é nada de “outro mundo” e deve ser tratada com muito respeito, ocorrendo ainda o tabu de pensar que a criança só quer se fazer ser notada quando, na verdade, é uma reação de impulso involuntário. O seu estado mais grave da síndrome, que causa prejuízos maiores na vida social, é rara. Certos casos clínicos são possíveis fazer com que esse comportamento desapareça ou que seu período fique mais latente e controlado. Não existe uma cura medicamentosa e sim, um conjunto clínico terapêutico, que pode ser capaz de efetivar o desaparecimento dos sintomas.


Autor: Pablo Frejat é psicanalista, consultor político e ensaísta. Autor de: Análise da saúde mental na estrutura do Estado no Sujeito.


Fonte — De Fato


APAN | Associação Paulista de Neurologia

Assessoria de imprensa 

ACONTECE COMUNICAÇÃO INTEGRADA